Araminho ou Wiry
Por Augusto Frazatto
Um pouco de história
O nome Rogallo se deve ao criador da asa delta, Francis Rogallo, engenheiro da NASA que a desenvolveu para resgate de cápsulas espaciais quando da reentrada na atmosfera.
Já tinha feito vários modelinhos para vôo livre, desta vez foi um R/C.
Para começar, eu tive de pensar em como conseguir o controle direcional desta asinha, e tentei várias maneiras.
Comecei pela técnica comumente usada pelos modelistas estrangeiros desta asinha, que empregam o sistema de inclinação lateral da vela, usando uma haste vertical que vai de um servo na base do carrinho da asinha, até um eixo transversal fixado no eixo longitudinal da vela.
Tal sistema, embora eficiente para asas de médio porte, (ao redor de 100 – 150 gramas) se mostra ineficaz para asas pequenas, leves e com uma vela grande em relação ao carrinho, que por isso mesmo são lentas, boas para vôo “indoor” como esta que aqui se propõe, porque este sistema pressupõe que a base seja suficientemente pesada para permitir que a asa incline com a força do servo enquanto a base permanece estável. Como esta base é leve, o que eu obtive foi um “rebolado” da asinha, com a vela permanecendo na horizontal enquanto a base balançava para os lados durante o vôo, sem mudar de direção coisa nenhuma.
Além disso, fazendo modelos mais pesados, o que eu obtive foram sucessivas trocas de jogos de engrenagens do servo Pico, da GWS, que são fracas porque ele é pequeno e leve. Um servo maior implica em motor mais forte, maior bateria e bem...deixou de ser modelo indoor.
O uso de lemes (heresia em uma asa delta!) também foi tentado, mas obtive o esperado péssimo resultado quando ele foi colocado na dianteira (como no 14 Bis) com o motor empurrando a asinha, quebrando na primeira queda Ficou apenas razoável quando colocado na traseira, com o motor também como empurrador, porque tal sistema mostrou sofrer muita interferência dos ventos, com a asinha fazendo o que o vento queria quando o vento estava de cauda, e não o que eu queria.
Tentei também o motor girando para os lados, apoiado sobre o servo e colocado na posição de empurrador, como em um barco com motor de popa. Também foi insatisfatório, porque a asinha necessitava de grandes espaços para curvar, dado o conflito entre a direção do empuxo do motor para um lado e o da asa para o outro, quando não caía em parafuso...
O único sistema eficiente que consegui fazer foi usando o motor na posição de puxador, colocado adiante do CG, apoiado sobre o servo e girando para os lados, obtendo assim o direcionamento vetorial: Empuxo para a direita = curva para a direita. Empuxo para a esquerda = curva para a esquerda. Daí já se depreende que o controle da asinha só se fará com o motor funcionando.
Para a sua ascensão, basta acelerar o motor, para descer, reduzir sem cortar o motor de vez.
Esta solução me satisfez porque consegui boas respostas da asinha mesmo sob ventos moderados e em espaços pequenos. Vale lembrar que a geometria da asinha sofre mais a interferência do vento do que um aeromodelo convencional. Um vento forte, dos que param aviões pequenos no ar, torna o seu vôo impossível, ou no mínimo muito difícil de se controlar. O ideal é voá-la em dias calmos, ou com um vento fraco, que até ajuda a apimentar o vôo, fazendo-a ficar parada no ar, subindo e descendo na vertical que nem elevador de prédio...
As primeiras tentativas da sua construção foram feitas em bambu, a fibra de carbono natural, só que, tentando fazer as estruturas cada vez mais leves, estas se fragilizavam e precisavam cada vez de mais travessinhas de bambu para reforçar a estrutura e esta ficou parecendo mais com uma gaiola de passarinhos...
Resolvi simplificar, buscando um material forte que pudesse resumir a estrutura nos seus eixos essenciais, vertical, horizontal e longitudinal, sem quebrar, e que ficasse leve o suficiente para um pequeno motor poder levar.
Fiz então algumas pesagens comparativas entre arames de aço com diâmetros diferentes e comprimentos iguais, e cheguei à conclusão de que era sim, possível, construir a asinha usando arame de aço fino o suficiente para ser leve, mas não tanto que envergasse com o menor sopro.
E assim surgiu o Araminho ou Wiry (para os que gostam dos nomes em inglês).
Construção
Você vai precisar de:- arame de aço, (dos de trens de pouso), com 1 a 1,2mm de espessura. (lembrar que quanto mais grossos = mais peso...),
- linha de costura forte,
- cola de cianoacrilato (Super Bonder),
- varetas de bambu,
- um pedaço de bambu com parede espessa (0,5cm pelo menos),
- o “papel-água” ou o plástico sugerido, e
- os componentes eletrônicos.
Como fazer:







1) Retifique os arames.
2) Faça os eixos do carrinho, dobrando os arames conforme os formatos na figura 1:
- o eixo longitudinal com a extremidade anterior em “gancho” para abrigar a roda dianteira, e no seu 1/3 posterior em 90° para formar o eixo vertical de apoio da vela, novamente dobrado em 120° para frente para a colocação do apoio de madeira do eixo da asinha.
- os eixos transversais são dobrados no seu ¼ central em 90° para formarem os dois eixos de fixação no bloco central de bambu, dobrados novamente em 90° nas suas pontas para formarem travas de movimento, sepultadas dentro do bloco de bambu, (fig-2) impedindo que os eixos laterais fiquem se movimentando para frente e para trás.
- e por fim o suporte da bateria, dobrado em uma alça aberta com as pontas dobradas em 90 ° para se juntarem ao miolo de eixos sepultados dentro do bloco central de bambu. (figuras 1 e 2)
3) Uma vez conseguida a montagem fixa de todos os eixos (ufa)!), proceda ao ensanduichamento dos mesmos dentro dos paralelepípedos de bambu (falei difícil hein?). Tais pedacinhos de bambu deverão coaptar-se perfeitamente, com sulcos internos para o encaixe dos araminhos montados, para formarem um bloco único e forte, colado com epóxi. Aconselho o uso do bambu no lugar de outra madeira, porque ele é leve e forte, mas você poderá usar outro tipo de madeira que lhe for melhor para trabalhar. É nesta peça que serão fixados os componentes eletrônicos (servo, receptor, etc).
4) Uma vez montado a estrutura nua do carrinho (a minha pesou 17 gramas, pintada), proceda à confecção e instalação do suporte do eixo da vela. (fig 4). Tal suporte é feito com um pedaço de madeira maciça, bem resistente, de 0,5x 0,5 x 5cm, lixado para se obter um apoio côncavo quando olhado na sua secção transversal e tem de ser em madeira forte para suportar os trancos que o eixo longitudinal da vela impõem nele por ocasião das quedas, quero dizer... aterrissagens. Cole este suporte na porção inclinada em 120° para frente, do eixo vertical, com epóxi e aguarde a sua secagem. Sugiro que faça um entalhe na base deste suporte para melhor coaptação. Ah, e não se esqueça de fazer uma dobrinha pequenininha ( 1-2mm) na ponta do eixo de aço para cima, para encaixar no suporte de madeira por baixo, e evitar que ele escape ou tombe para os lados.
5) Proceda à confecção e instalação de uma pequena sela, de apoio para o motor, colada sobre o servo, entre este e o motor, para servir de apoio ao eixo de movimentação lateral do motor, quando das aterrissagens da asinha, evitando que este eixo force as engrenagens e eixos internos do servo, nos impactos contra o solo. (fig -3).
6) Faça agora a instalação da vareta curta (10cm) de apoio da vareta longa (30cm) transversal da vela, junto à parte posterior do apoio longitudinal, feita de bambu. (é material forte, leve e não enverga com facilidade, como ocorreria com o arame de aço, mantendo a vela aberta e ligeiramente inclinada lateralmente para a direita com o auxílio dos fios de linha laterais, para a compensação do torque da hélice). Utilize o epóxi nesta colagem. É ponto de muito esforço. (fig 5).
A vareta longa vai ser fixada na curta com o auxílio dos elásticos dentários de 1/8 de polegada, comprados em lojas de artigos dentários. Tal arranjo permite a sua substituição com facilidade em caso de quebra. (e nessa vareta isso é freqüente). A estrutura do carrinho está pronta.
Pinte se quiser um acabamento melhor. Sugiro esmalte comum da Coral, sem diluição, com pincel super macio e muita paciência. Não aconselho tinta em “spray” porque são muito diluídas e demoram mais para acabar a pintura.
Instale as rodas com o desenho e gosto seus. Eu optei por pequenas e as mais leves que poderiam ser usadas, da GWS.
7) Agora a parte eletrônica (servo, receptor, etc). Siga (se quiser) a disposição mostrada nas fotos. O receptor e o “speed control” são fixados usando fita isolante e só, diretamente no prisma de bambu. O servo, que vai ter de suportar o peso e a força do motor, é fixado com esparadrapo de pano mesmo, bem firme, coberto com fita isolante só para “disfarçar”.
Conecte a fiação correspondente, confira para ver se os pólos não estão invertidos, confira de novo (senão tchau receptor, speed, servo...) ligue na bateria, e faça o teste do conjunto motor.
Vai aqui uma opção: iluminar o modelinho. Eu coloquei uma lampadinha das de guirlanda de Natal, sobre o motor, ligada em paralelo aos pólos do motor. Resultou em um efeito gostoso: - à medida que se acelera o motor a luzinha aumenta o brilho e vice-versa. Isso me permite vôos noturnos na rua em frente à minha casa, quando quero descansar um pouco do meu trabalho (alguns fazem pausas para fumar, eu faço pausas para voar...). Chega de enrolar e vamos aos componentes eletrônicos!
Eu usei os da GWS, adquiridos via Internet, da Aircraft, no Japão (www.aircraft-world.com) As baterias são as de polímero de lítio (Lypo, 3,2V 250mAh por célula) que eu comprei da Bob Selman designs, nos EUA (www.bsdmicrorc.com) como células unitárias e as montei aqui em grupo de duas, separáveis. Esta forma de montagem da bateria me permite de tempos em tempos dar carga isoladamente em cada célula, evitando o desbalanço da bateria como um todo, diminuindo e muito o risco de sobrecarga e subseqüente incêndio da mesma.
Espero que você já esteja à par do risco de incêndio deste tipo de bateria, provocado principalmente pelo desbalanço das suas células individuais depois de muitas cargas e descargas.
Leia com atenção as instruções de uso e sempre dê carga em local aberto, longe de produtos ou objetos inflamáveis. Alguns sugerem o uso de um aparato “apaga-fogo”, que consiste no seguinte: um vaso de cerâmica e seu prato também de cerâmica. O vaso tem um saquinho plástico cheio de areia, preso no seu fundo, e ele é colocado de boca para baixo sobre a bateria apoiada no prato de cerâmica. No caso de explosão da bateria, o calor derrete o saquinho e a areia cai sobre a bateria, apagando (?) o fogo. É uma idéia válida...
Tenha um extintor de incêndio para eletricidade por perto, pois nunca se deverá usar água se houver incêndio da Lypo. O lítio exposto explodirá e as conseqüências serão piores, com queimaduras sérias em você. Você irá me perguntar: e porque o uso da Lypo? Simplesmente porque ela é a única bem leve que consegue fornecer 7,2V e 250mAh existente no mercado. Qualquer outra bateria vai ser um “tijolo” para o motor da asinha. Necessitam ser 2 células porque o conjunto motor da GWS só trabalha acima de 4V e uma só célula da Lypo só fornece 3,2V. Quem sabe no futuro existirão baterias mais potentes e mais leves ainda. Quem viver, verá...
Nota do editor: Baterias LiPo só explodem se for excedida em muita a tensão de carga de uma célula (acima de 4,5V), mantendo-as balanceadas e utilizando adequadamente o carregador o risco é mínimo, e mesmo no caso de uma explosão, não há tempo de usar um extintor de incêndio, já que tudo se consome em poucos segundos. Tome os mesmos cuidados que teria com uma espiriteira para fazer fondue, não deixando sobre ou próximo a materiais inflamáveis.
Existem componentes eletrônicos que trabalham com menos de 3,2 V e o próprio Bob Selman os vende, só que na minha opinião são caro$$$$$$$$$$$$$$$... Os componentes usados foram:
| Rodas | GWS LFW 25,5mm | US$1,95 o par |
| Motor | GWS – LPS – RXC – AC | US$ 18,95 |
| Hélice | GW EP05043 2P ou GW-EO 6050 2P (cortadas) | US$2,95 o par |
| Speed control | JES – 004 (Jeti Micro) | US$ 19,80 |
| Servo | GWS Pico STD | US$ 15,95 |
| Receptor | GWS R4P | US$ 18,80 |
| Baterias | E-tech 250mAh 7,4V | US$16,00 |
O transmissor que uso é um antigo Futaba Attack II de 2 canais, usado originalmente para uma lanchinha, do qual eu tirei a molinha centralizadora da manetinha do acelerador, senão a asinha não parava quieta...
O carregador das Lypo tem de ser específico para elas, caso contrário é desastre na certa, no seu bolso e na sua péle! Eu tenho um marca “Apache” que uso conectado à uma bateria usada de automóvel, mas que ainda fornece os 12V de corrente contínua, e esta é carregada com eletricidade doméstica, com um desses carregadores que usam uma lâmpada comum, comprado em loja de material elétrico.
Falando das hélices: as duas funcionam bem, mas as 6050 precisam ter as pontas cortadas em 1cm para não provocarem superaquecimento do motor.
Montou tudo agora? Tá tudo funcionando bonitinho?
8) Então agora é a hora de segurar a vela, digo, fazer a vela... (figura 6) A vela (ou asa propriamente dita), é um triângulo retângulo construído com varetas de bambu, unidas pelas pontas com um pedaço de compensado de 3 ou 4mm cortado em forma de triangulo reto, com uma vareta central colada sob esse compensado, em ângulo de 20-30° em relação ao plano das varetas laterais, na direção da bissetriz do triângulo (45°) e entelada com uma folha plástica super leve, ou papel leve e resistente.
Aqui poder ser usado o “papel água” encontrado em papelarias, ou então a folha de plástico que reveste uma das faces de um babador descartável impermeável italiano da Injecta (injecta.com.br) usado por dentistas no peito de suas vítimas, quero dizer... Pacientes, (minha dentista vai me bater...) e que é separável da parte de papel com certa facilidade. É finíssima e super leve, só que é pequena e tem de ser emendada com durex, mas fica ótima porque faz os cones com perfeição, sem deformá-los com amassados, como no papel, que é mais rígido.
Lembre-se de sempre recortar o triângulo de papel ou plástico “à maior” do que o esqueleto em bambu do triângulo retângulo, para que a vela consiga formar os dois cones de direcionamento e arrasto quando ela enfunar.
Vai agora uma coisa MUITO IMPORTANTE. A vareta central (a da bissetriz, lembra?) tem de ser colada em um ângulo entre 20 a 30° (fig 7) em relação ao plano das varetas laterais, porque senão a asa não vai voar, vai perder o equilíbrio de vôo, voando em uma trajetória de circunferência longa (como um arco íris) saindo de sua mão e indo até o chão mais adiante, se arrebentando, e você só poderá cortar o motor e esperar que o desastre não $eja tão grande... Esse ângulo faz o arrasto ser para cima, e não quase horizontal, forçando a asa sempre a subir e dará a sustentação, controlada pela aceleração do motor.
Instale os fios de linha de costura nas varetas laterais, dando uma laçada com eles ao redor destas varetas, à meia distância das pontas anterior e posterior das mesmas. Tais fios irão fixar a vela à vareta transversal do carrinho, para a sua estabilidade e sustentação.
9) Montando tudo junto.... Para a montagem da asa no carrinho, a vareta central vai ser fixada no sulco longitudinal do apoio da vela com o auxílio dos elastiquinhos dentários de 1/8” (olha eles aí de novo!). São eles que irão fixar a vareta central e também permitir que a vela seja deslocada para frente ou para trás para se acertar o CG de vôo.
Uma vez montada a asa no carrinho, prenda os fios de linha laterais na vareta transversal de apôio da vela, montada na parte superior do carrinho, usando os elastiquinhos de 1/8 “em laçada dupla (um” oito “) para boa fixação, de maneira que as varetas laterais mantenham a sua geometria de 20-30° em relação à vareta central, sem curvar as extremidades posteriores para baixo.
Está pronta a asinha!!!!!!!!!
Proceda à checagem do equilíbrio de vôo, lançando a asinha em uma área gramada, mova a vela para frente ou para trás em relação ao carrinho, até obter um planeio linear em descida. (ao acionar o motor a tendência será o vôo horizontal ) Conseguido tudo isso, vá soltar a asinha em um campinho de futebol ou parecido, em dia calmo, sem vento, e vá treinando os controles até conseguir o vôo linear e uniforme, com as curvas suaves, longas.
Não tente fazer curvas abruptas, porque a tendência será ela inclinar lateralmente e apontar para baixo, caindo, e se você não tiver prática, vai cair mesmo! Espere ter mais prática e familiaridade com a SUA asinha, para treinar essas curvas mais fechadas. Bons vôos e divirta-se muuuuuito!!!!!
O meu aeromodelo completo (com a bateria no lugar) pesou 75 gramas. Espero que você consiga fazer a sua muito mais leve do que a minha! (esse é o desafio dos aeromodelos “indoor” = levíssimos e ao mesmo tempo resistentes)
Agora um pequeno discurso:
A finalidade deste artigo não foi escrever para você simplesmente me copiar e parar por aí. Minha intenção é despertar em você a curiosidade, a compreensão das forças aerodinâmicas envolvidas no vôo desta asinha, e conseguir imaginar e criar uma nova asinha, DO TEU JEITO, à partir dos aprendizados com esta aqui.
É de criatividade que um ser humano precisa para despertar sua autoconfiança.
Com uma boa autoconfiança vem uma boa auto-estima, e com essas duas coisas juntas, uma pessoa não se sente e nem se torna uma marionete na mão da sociedade. Um país formado por pessoas que são ricas em auto-estima tem a sua autonomia, não depende de meramente copiar o que países estrangeiros fazem, desenvolve sua própria tecnologia e bons valores e consegue se fazer respeitar.
Num futuro próximo haverá um artigo sobre outro modelo desta asinha (Arame ou Wiry II) não muito diferente, só um pouco maior, mais forte e pesado, construído utilizando-se um motor de Cd-rom rebobinado e o speed control próprio para este tipo de motor.
Tchau. Me dê notícias.
Augusto César Frazatto
aucfraz@uol.com.br







